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Creators de Favela: a nova força da Creator Economy

Foto do escritor: Freitas NettoFreitas Netto


O estudo "Creators de Favela", conduzido pela YOUPIX, Digital Favela e Data Favela, oferece um panorama detalhado sobre os criadores de conteúdo que surgem dnas favelas brasileiras.


Ele analisa suas trajetórias, desafios e impacto dentro da Creator Economy. Mais do que uma análise quantitativa, o relatório aborda dimensões sociais, culturais e econômicas que moldam essa nova geração de criadores.


A seguir, faço uma análise aprofundada dos principais achados da pesquisa:


FAVELA COMO IDENTIDADE E POTÊNCIA


A pesquisa destaca que ser periférico vai além da geografia:


  • 47% concordam que "Periferia não é somente onde eu moro, é a minha identidade, meu modo de ser e estar no mundo".

  • 82% afirmam que “Ver uma pessoa periférica tendo sucesso me incentiva a querer chegar lá também”.


Ou seja, a favela não deve ser vista apenas como carência, mas como potência criativa e econômica.


QUEM SÃO OS CREATORS DE FAVELA?


O estudo desmistifica a ideia de que a produção de conteúdo periférica se limita a grandes centros urbanos. Criadores estão espalhados por todo o Brasil, e sua relevância não está no número de seguidores, mas no impacto cultural e social que promovem.


Dos 20 milhões de criadores de conteúdo no Brasil, 1,5 milhão são criadores de conteúdo de favela.


Perfil demográfico


  • 88% são pretos e pardos.

  • 55% são mulheres.

  • 2/3 possuem no máximo ensino médio completo.

  • 31% se identificam como não heterossexuais.

Fonte: "Creators de Favela", conduzido pela YOUPIX, Digital Favela e Data Favela
Fonte: "Creators de Favela", conduzido pela YOUPIX, Digital Favela e Data Favela

  • A maioria são nano (1k-10k seguidores) e micro (10k-50k seguidores) influenciadores.

  • 70% começaram a atuar como influenciadores para inspirar e influenciar outras pessoas; seguido do motivo de “me expressar, manifestar minha opinião”(47%) e “Para divulgar meu trabalho / produto / marca”(47%).

  • Apenas 30% entraram pelo potencial financeiro.


Insight-chave: Para os creators periféricos, o conteúdo digital é uma forma de expressão e identidade antes de ser uma oportunidade de renda. Esses creators veem o digital como uma ferramenta de representatividade e mudança social.


Plataformas e Nichos


  • Instagram (99%) e TikTok (85%) lideram como principais plataformas de atuação.

  • Facebook (76%), YouTube (53%) e Twitter/X (54%) aparecem como canais complementares.


Fonte: "Creators de Favela", conduzido pela YOUPIX, Digital Favela e Data Favela
Fonte: "Creators de Favela", conduzido pela YOUPIX, Digital Favela e Data Favela

  • Moda, beleza e estilo são os nichos mais populares (44%), seguidos por arte, cultura e música (39%) e estilo de vida (37%).


Fonte: "Creators de Favela", conduzido pela YOUPIX, Digital Favela e Data Favela
Fonte: "Creators de Favela", conduzido pela YOUPIX, Digital Favela e Data Favela

 Insight-chave: 72% dos consumidores não se importam com o número de seguidores, mas sim com autenticidade e representatividade.


OS DESAFIOS DO CREATOR PERIFÉRICO


Mesmo com crescimento e visibilidade, os criadores enfrentam diversas barreiras estruturais.


Discurso de Ódio e Preconceitos


  • 6 em cada 10 creators já sofreram discurso de ódio nas redes sociais.

  • Os ataques mais comuns envolvem:

    • Racismo (58%)

    • Intolerância política (43%)

    • Machismo/sexismo (32%)

    • LGBTfobia (26%)


Insight-chave: Os criadores periféricos lidam com desafios que vão além do digital – a discriminação é estrutural e reflete na forma como são percebidos e pagos.


Precarização e falta de estrutura profissional


  • 63% não possuem métrica ou formato para precificar seu trabalho.

  • 60% já realizaram trabalhos sem contrato.

  • 52% têm mais da metade da renda vinda da internet, mas 29% não têm retorno financeiro algum.

  • Muitas marcas tratam criadores periféricos com descaso, oferecendo pagamentos baixos e prazos abusivos (até 90 dias úteis).


Renda e Retorno Financeiro


  • 50% dos respondentes ganham até R$ 5.000 por mês em 2023 (eram 62% em 2022, mostrando uma leve melhora).

  • 7 em cada 10 consideram o retorno financeiro muito ruim em relação ao conteúdo produzido.

  • 8 em cada 10 já aceitaram ou aceitariam trabalhos por um valor abaixo do ideal.

  • 90% aceitam permutas como forma de monetização.

  • 89% acreditam que marcas e parceiros pagam menos para influenciadores de favela em comparação a outros.


EMPREENDEDORISMO PERIFÉRICO: UM PUXA O OUTRO


Os criadores de favela não apenas crescem individualmente, mas impulsionam suas comunidades.


  • 39% trabalham com empreendedores locais.

  • A influência digital se transforma em impacto real, ajudando pequenos negócios a crescerem.

  • Criadores periféricos se tornam referências para suas comunidades.


Insight-chave: A Creator Economy na favela é coletiva e colaborativa – um creator que cresce, abre caminho para outros.


CONTEÚDOS PERIFÉRICOS


Denúncia e Estratégia de Sobrevivência


Na periferia, criar conteúdo não é apenas uma questão de visibilidade ou monetização, mas também uma estratégia de sobrevivência. Criadores que conquistaram grande audiência nas redes sociais utilizam sua autoridade para denunciar violações de direitos e debater políticas públicas. Denunciar a negligência do Estado, a precariedade da infraestrutura, a violência policial e a falta de saneamento básico se tornou parte da rotina desses creators.


O alcance digital da favela hoje permite que temas antes invisibilizados ganhem espaço. Um exemplo é a forma como muitos creators compartilham dicas de “macetes” de sobrevivência, como agir diante de uma abordagem policial ou garantir o mínimo de segurança no dia a dia. O lado ruim da favela não está no povo, mas na ausência do Estado, e os criadores de conteúdo têm usado suas plataformas para evidenciar essa realidade.


Racismo Algorítmico


Além do discurso de ódio, há um desafio invisível: o racismo algorítmico. Criadores negros e periféricos frequentemente enfrentam bloqueios dentro das plataformas, como alcance reduzido, desmonetização e exclusão de conteúdos que falam sobre pautas sociais.


Ferramentas de inteligência artificial reforçam estereótipos negativos, associando automaticamente criadores negros a imagens de violência ou criminalidade. Esse cenário limita a ascensão desses influenciadores e perpetua desigualdades no ambiente digital.


📌 Insight-chave: A desigualdade do mundo real se reproduz na economia digital, com menos reconhecimento e oportunidades para creators da favela.



Outro fenômeno interessante é o uso do humor como ferramenta para quebrar estereótipos. Criadores periféricos têm encontrado na comédia uma maneira de desmistificar preconceitos que marginalizam corpos negros e periféricos, ressignificando narrativas.


A ascensão das “Cunhadas”, por exemplo, mostra como comunidades de mulheres com companheiros encarcerados utilizam as redes sociais para compartilhar vivências, humanizar suas histórias e até atrair a atenção de marcas. Esse movimento ilustra como a Creator Economy da favela vai além do consumo de conteúdo, sendo também um espaço de ressignificação de narrativas.


LGBTQIA+ na Favela


A homofobia, assim como o racismo, é estrutural e transcende territórios, impactando especialmente pessoas LGBTQIA+ periféricas, que enfrentam tanto o preconceito externo quanto a rejeição dentro da própria comunidade. Apesar de a favela ser um espaço de resistência, seus códigos culturais rígidos reforçam uma identidade atrelada à hipermasculinidade, dificultando a aceitação de expressões de gênero diversas. 


Referências estéticas como tênis Mizuno, óculos Juliet e polos Lacoste moldam um imaginário que nem sempre dá espaço para a fluidez de gênero, tornando essas pessoas alvos de discriminação. No entanto, o Movimento Queer tem impulsionado manifestações culturais que ampliam a visibilidade e o respeito dentro das periferias.


FinInfluenciadores: A Educação Financeira Chega à Periferia


O interesse por educação financeira nunca foi tão grande, e isso se reflete no número expressivo de seguidores dos FinInfluenciadores: mais de 175 milhões de brasileiros acompanham perfis voltados para finanças, segundo a 5ª edição do relatório FinInfluence da Anbima.


No entanto, enquanto o mercado de finanças cresce e se expande, ainda há poucos criadores de conteúdo voltados para a realidade da classe D e E, que representam 50,7% da população e vivem com uma renda mensal de até R$ 2,9 mil. Esse vácuo evidencia a falta de representatividade financeira e a distância entre o conhecimento econômico tradicional e a realidade periférica.


Mas esse cenário está mudando. Criadores como Nath Finanças, Grana Preta e Favelado Investidor estão ocupando esse espaço e democratizando a educação financeira com uma linguagem acessível, prática e conectada à realidade da favela, provando que o conhecimento sobre dinheiro não pode ser um privilégio – tem que ser um direito.


Moda e Música: Expressões de Identidade e Resistência


A favela sempre ditou tendências, mesmo sem reconhecimento formal da indústria. A moda na periferia não se trata apenas de estética –  é um símbolo de identidade, pertencimento e resistência.


Estilos como o mandrake, o upcycling e o streetwear ganharam protagonismo, transformando o que antes era marginalizado em referência para grandes marcas. O que a quebrada usa hoje, a passarela copia amanhã. Mas há um abismo na valorização: enquanto a favela é fonte de inspiração, os criadores periféricos seguem subvalorizados e, muitas vezes, sem reconhecimento financeiro por suas contribuições à indústria.


Na música, a história se repete. 39% dos criadores de favela atuam no nicho de arte, cultura e música, colocando o funk, o rap e o trap no centro da cena digital. Esses gêneros não são apenas entretenimento – são formas de denúncia, narrativa e resistência.


O funk, criminalizado por décadas, hoje é um dos gêneros mais consumidos no Brasil, mas os artistas periféricos ainda enfrentam desafios para monetizar seu trabalho de forma justa. Criadores de conteúdo da favela utilizam suas redes para amplificar vozes, conectar artistas a novas audiências e questionar a exclusão sistemática de suas expressões culturais da grande mídia.


Enquanto a indústria lucra com a estética da periferia, os criadores seguem na luta por reconhecimento, valorização e um espaço legítimo na economia criativa.


Falando de saúde


A saúde sempre foi um tema negligenciado nas políticas públicas voltadas às favelas, mas os criadores de conteúdo periféricos estão mudando essa realidade. Criadores periféricos utilizam suas plataformas para nomear dores, debater direitos básicos e propor soluções acessíveis, criando um espaço seguro para que temas como saúde mental, bem-estar e autocuidado sejam abordados de maneira próxima à realidade da quebrada.


A alimentação é um dos pilares dessa discussão. O veganismo, por exemplo, ainda é tratado como um movimento elitizado, mas criadores periféricos vêm mudando essa narrativa ao mostrar que é possível construir uma alimentação vegana acessível e culturalmente conectada às raízes da favela. No entanto, a transição alimentar nessas comunidades carrega simbologias profundas – para muitas famílias, poder colocar carne na mesa é um símbolo de ascensão e resistência dentro de um sistema que historicamente negou esse direito.


Já no aspecto físico, o esporte surge como ferramenta de cura e ocupação de espaços. Coletivos esportivos formados por pessoas pretas e periféricas estão criando oportunidades para que esses corpos estejam em movimento, não apenas pelo lazer, mas como um ato de resistência dentro dos centros urbanos. 


A FAVELA VENCEU?


O estudo fecha com uma questão importante: a favela venceu?

A Creator Economy abriu caminhos, mas a favela ainda enfrenta desigualdades estruturais. Criadores periféricos continuam lutando por valorização financeira e reconhecimento no mercado publicitário.


Os desafios ainda são muitos:


  • Falta de contratos e garantias financeiras.

  • Criadores periféricos recebem menos que influenciadores de classes mais altas.

  • Marcas exploram a representatividade, mas pagam pouco.


Mas a favela segue resistindo e inovando:


  • Criadores impulsionam suas comunidades e negócios locais.

  • O digital fortalece coletivos periféricos e abre portas para novas narrativas.

  • Influenciadores de favela estão redefinindo cultura e consumo no Brasil.


As favelas são territórios pulsantes, repletos de narrativas que exigem dos criadores de conteúdo uma habilidade única para traduzir vivências complexas para o digital. E nisso, os favelados são mestres.


A periferia concentra, por metro quadrado, os maiores articuladores de suas próprias histórias, desconstruindo estereótipos impostos por uma mídia elitista e autocentrada. 


Se a favela ainda não venceu, esses criadores garantem que ela exista, que seja ouvida e que sua potência seja inegável. E isso já nos dá licença para acreditar que essa conta vai fechar. Para muitos, ela já está fechando.


 

Por: Antônio Netto

Gerente de Planejamento, liderando estratégias de marketing para o varejo. Com vasta experiência, também sou Professor, mestrando em Administração, e consultor em marketing digital, focado em inovação e prática.


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